Preparar a Parentalidade: Quando e Como?
quarta-feira, 10 de abril de 2019
A preparação para a parentalidade deverá começar antes da chegada de uma gravidez. Idealmente deverá iniciar-se com uma reflexão individual sobre qual o significado pessoal do que é ser mãe e ser pai e qual o significado pessoal do que é ter um filho.
Podem colocar-se questões do tipo: Quero ou não ter filhos? O que é para mim ser mãe/ pai? Porque faz sentido ser mãe/ pai? Será porque a sociedade pressiona? Será porque o meu (minha) companheiro (a) quer? Será só porque sim ou porque é suposto? ...
Alguns dos motivos para se ter filhos podem ser, por exemplo:
- Realização pessoal: sonhar que uma criança complementa o universo familiar;
- Gostar de crianças e querer cuidá-las;
- Religião: o sexo com a função de procriação;
- A visão da Mãe com o amor incondicional: modelo de comportamento admirado e idealizado;
- Medo do futuro; arrependimento, ter alguém que possa ser cuidador;
- Valores morais e éticos: segundo o modelo considerado adequado pela sociedade, a vida só teria sentido quando se cria uma família com filhos;
- Realizar-se por meio dos sucessores: querer dar aos filhos o que não teve ou ganhou dos pais, assim como projetar expetativas e sonhos não realizados numa criança;
- Projeto para a vida: ser bem-sucedido profissionalmente, comprar um apartamento e tornar-se Pai ou Mãe. (Há casais que planeiam todos os detalhes do futuro, incluindo o projeto de ter filhos, ...)
- Simplesmente querer: há pessoas que nunca pensaram na hipótese de viver sem ter filhos e, desde pequenas, sabem que um dia os querem ter. (Necessidade biológica e/ ou psicológica.)
Alguns motivos para não se ter filhos são, por exemplo:
- Simplesmente não querer;
- Querer viver em função de si próprio;
- Não estar disponível para mudanças e novas rotinas;
- Querer atenção exclusiva do (a) companheiro (a): há casais que sentem dificuldade em dividir o amor com outro, mesmo que seja com um filho;
- Querer evitar erros do passado: "Pessoas traumatizadas pela separação conjugal dos pais querem que os possíveis filhos não venham a sofrer desilusões como as que passaram";
- Ter medos físicos da dor associada ao processo;
- Temer não ser um bom Pai ou Mãe;
- Priorizar a carreira;
- Não gostar de crianças e como tal não se imaginar cuidador (a);
- Não querer a perda de liberdade.
Não importa qual a decisão tomada nesta matéria. Não é por aqui que se define a qualidade das pessoas. O importante é que a decisão de ter ou não ter filhos seja em função daquilo que se sente e deseja profundamente. Está é a primeira premissa para a preparação para a parentalidade.
Genericamente podemos considerar a existência de três momentos chave para esta preparação:
1. Antes de uma gravidez: este seria o momento ideal; que a gravidez decorresse de um desejo refletido e amadurecido e que o seu aparecimento permitisse uma continuação coerente e consistente da preparação para se ser Pai/ Mãe.
2. Na gravidez:
- na comunidade do tal desejo/ planeamento prévio ou,
- quando esta não foi planeada naquele momento da vida (preparação por vezes bem mais exigente).
3. Sempre, desde que se têm filhos, porque a cada etapa do seu desenvolviemnto é necessário ajuste e adaptação.
Muitas vezes, quando se pensa na preparação para a chegada de um filho, pensa-se no enxoval do recém-nascido, no quarto, no berço, na roupa e nos outros objetos materiais que precisam estar disponíveis.
Menos vezes se pensa em ser pais preparados para criar e educar uma criança num ambiente emocionalmente gratificante e estável.
É mais importante uma compreensão de si mesmo, uma consciência de si próprio e das suas características, uma consciência do seu equilíbrio emocional... Se vamos criar/ educar uma nova pessoa, devemos saber em que condições nos encontramos, em que fase do nosso processo de formação e desenvolvimento estamos e o que precisamos melhorar.
Não podemos esquecer, NUNCA, que o bem-estar emocional dos pais leva à SAÚDE MENTAL dos filhos.
Preparar a parentalidade antes da gravidez remete-nos para o planeamento familiar (PF).
O PF é o direito que se tem de decidir se se quer ter filhos, quando se quer tê-los e quantos filhos se quer ter (o Estado deve ser responsável por garantir informações de fácil acesso, apoio, educação, métodos contracetivos e consultas médicas à família).
Se a decisão for avançar para a parentalidade, o PF ajuda a refletir e dialogar no casal sobre as responsabilidades de cada um antes, durante e após a chegada do filho.
O planeamento de uma gravidez deverá permitir ao casal ir progressivamente interiorizando e amadurecendo o papel que os espera (refletir e falar abertamente sobre as suas dúvidas, receios e medos - normais), com a noção de que a parentalidade lhes vai exigir disponibilidade e resistência psicológica (e não só económica).
Por vezes, é inexistente um planeamento psicológico da gravidez ajustado (exp.: ocorrência de uma gravidez inesperada e inconsequente, a decisão num período de vida errado, como por exemplo, numa fase de luto). Estamos no terreno das gravidezes em situação de risco psicológico onde pode ser importante uma ajuda psicoterapêutica.
A este propósito diz-nos Eduardo Sá, em 2017: "Importa evitar uma «gravidez na barriga» que se desencontra da «gravidez no pensamento»."
Preparar a parentalidade na gravidez pode acontecer na continuidade do projeto parental prévio, onde o desejo de gravidez decorre amadurecido e refletido como vimos atrás. Mas, se a gravidez não foi planeada (ou foi de forma pouco consistente), o desafio desta preparação é maior e com mais possibilidade de risco psicológico.
Poderão viver-se momentos sensíveis, a partir dos quais se pode desenvolver um trabalho terapêutico no contexto multidisciplinar através de consultas pré-natais, concorrendo para a consolidação dos processos de gravidez e consequente parentalidade.
Caberá aos profissionais estarem atentos à disponibilidade dos pais para a parentalidade, observando igualmente a qualidade da relação do casal e a forma como cada um deles vivencia este processo. Desta atenção decorre, para além da vigilância obstétrica:
- Informar sobre as alterações e fragilidade normais de uma gravidez (na mulher, no homem e no casal);
- Valorizar a comunicação entre eles e com os profissionais disponíveis;
- Facilitar a presença do companheiro, sempre que o casal solicite (em caso de exames e consultas pré-natais).
- Introduzir o bebé - referir (qb) a importância de ambos comunicarem com o bebé in utero (acariciar, conversar, imaginar);
- Incentivar a presença em cursos de preparação para o parto;
- Dinamizar visitas à maternidade;
- Divulgar informação escrita concisa e atraente sobre apoios familiares, aspetos pediátricos, psicológicos, jurídicos... antes do nascimentos obstétrico do bebé;
- Informar sobre as características e exigências do parto e do puerpério (principalmente quando não frequentam os cursos de preparação para o nascimento);
- Alertar para as alterações normais do pós-parto e para os fatores de risco para a depressão pós-parto;
- Alertar para que é comum que o Pai se sinta excluído e inseguro (podendo inclusive desenvolver também ele uma depressão pós-parto);
- Mostrar disponibilidade para esclarecer/ clarificar/ apoiar na nova fase e nos desafios da parentalidade;
- Alertar para que atualmente há muita literatura que pode facilitar o processo, mas também que entre a teoria e a prática há algumas diferenças;
- Tranquilizar relativamente à importância do bom-senso, do processo de aprendizagem e do autoconhecimento que decorre deste mesmo processo.
Importa ainda alertar para o super desafio: conciliar individualidade - conjugalidade - parentalidade.
Gostaria de terminar com algumas frases que ajudam a destruir mitos em torno da parentalidade e alertar para a importância do recurso a equipas de especialistas que podem ajudar, se necessário, a tornar mais prazerosa a preparação e a vivência da parentalidade:
- Nem todas os casais que ficam grávidos planeiam ser Mães/ Pais;
- Nem todos os filhos foram ou são desejados;
- Nem todas as mulheres grávidas se sentem belas e felizes com a sua gravidez;
- Nem todas as mulheres que planeiam uma gravidez se sentem, de facto, grávidas psicologicamente;
- Nem todas as mulheres que estão grávidas passam os nove meses como se fossem os melhores meses das suas vidas (o conhecido "estado de graça");
- Gravidez e Maternidade são duas realidades distintas, cujo desejo nem sempre é coincidente. Pode desejar-se ser Mãe e ter dificuldade em viver a gravidez enquanto processo biológico;
- Nem sempre os casais estão sintonizados no desejo de gravidez/ parentalidade.
Maria de Jesus Correia
A orelha ouve, o cérebro escuta - Processamento Auditivo Central
quarta-feira, 3 de abril de 2019
O que é?
É a capacidade de analisar ou interpretar informações que nos chegam através da audição. Depende do bom funcionamento das áreas auditivas do córtex cerebral e dos "caminhos" que conduzem o som até estas áreas. Podemos dizer que é o que fazemos com o que ouvimos.
O ser humano precisa de um conjunto de habilidades (de processamento auditivo) para ser capaz de comunicar com outros, aprender uma informação nova ou realizar tarefas do dia-a-dia. Essas habilidades incluem a localização sonora, a lateralização, a discriminação auditiva, o reconhecimento de padrões auditivos, a perceção de aspetos temporais e o desempenho auditivo na presença de sinais competitivos ou degradados.
O que é a perturbação do processamento auditivo (PPAC)?
Quando existe comprometimento das habilidades descritas anteriormente, estamos perante uma Perturbação do Processamento Auditivo Central.
A PPAC não é resultado de um défice de atenção, défice linguístico ou de qualquer outro processo cognitivo, mas pode (ou não) gerar dificuldades em outras áreas (linguagem, aprendizagem ou comportamento).
Cerca de 2 a 5% das crianças em idade escolar apresentam PPAC, afetando diretamente o seu desempenho escolar e a sua vida social.
Manifestações comportamentais da PPAC
Linguagem expressiva:
- dificuldade na produção de sons;
- dificuldade em compreender ideias abstratas, piadas ou expressões com duplo sentido;
- dificuldade em perceber os aspetos prosódicos de fala: ritmo e entoação;
- dificuldade em contar histórias ou manter uma sequência lógica, bem como em repassar recados.
Linguagem e escrita:
- troca de letras com sons parecidos;
- inversão de letras;
- disgrafia;
- dificuldade na compreensão da leitura;
- dificuldade em acompanhar o ritmo de um ditado.
Comportamento social:
- distração e desorganização;
- ansiedade e impaciência;
- tendência ao isolamento.
Desempenho escolar:
- dificuldade de memorização (nomes ou números);
- dificuldade com regras de acentuação gráfica;
- dificuldade em línguas estrangeiras ou educação musical;
- dificuldade na interpretação de problemas de matemática.
Audição
- dificuldade em perceber a fala na presença de ruído;
- procura de pistas visuais no rosto do orador;
- dificuldade em seguir regras ou ordens;
- dificuldade em localizar a fonte sonora;
- dificuldade em distinguir direita e esquerda;
- atenção curta para sons em geral.
Importa salientar que estas manifestações não são exclusivas da PPAC e, por isso, deve realizar-se um diagnóstico diferencial.
Causas da PPAC
Ainda que sejam desconhecidas na maior parte dos casos, a literatura descreve:
- intercorrências durante a gestação e o nascimento;
- otites frequentes durante os primeiros anos de vida;
- hereditariedade;
- problemas na maturação do sistema auditivo;
- falta de estimulação auditiva durante a primeira infância;
- infeções pós-natais.
Como diagnosticar as PPAC?
A avaliação do PAC é realizada pelo Audiologista e deverá ser precedida de uma anamnese cuidada, de uma observação em Otorrinolaringologia e em Terapia da Fala, da aplicação de uma escala de funcionamento auditivo (SAB) e de uma avaliação auditiva periférica (Impedancimetria, Audiograma Tonal Simples e Audiograma Vocal).
Só existirá critério para avaliação do PAC se a audição periférica estiver íntegra.
O diagnóstico da PPAC é feito através de testes comportamentais que avaliam o conjunto das habilidades auditivas já referidas. A sua aplicação exige que a criança seja capaz de compreender as tarefas solicitadas, demonstre um nível de linguagem recetiva e expressiva que lhe permita compreender os estímulos verbais e uma atenção e memória auditivas suficientes para executar os exercícios propostos. Dificuldades ao nível do desenvolvimento, cognição e/ ou aprendizagem podem dificultar ou mesmo inviabilizar uma avaliação.
A idade mínima para a avaliação do PAC são os 6 anos. Ainda assim, se existirem suspeitas de alteração do processamento em crianças menores, a escala de funcionamento auditivo ou outros questionários/ checklists existentes poderão ser uma ajuda importante (para médicos, terapeutas da fala, professores, psicólogos ou pais) numa triagem inicial, determinando a pertinência no encaminhamento para a avaliação.
Para além disso, existe ainda o Rastreio do PAC, constituído por 3 testes simples e rápidos, e que pode ser realizado por outros profissionais. Permite avaliar a localização sonora e a memória sequencial verbal e não verbal, integrando também uma excelente ferramenta de despiste quando as crianças não podem realizar o exame completo ou, mais uma vez, para verificar a urgência na realização da avaliação completa.
Não obstante, e como já referido, as manifestações da PPAC podem justapor-se a outras alterações sensoriais ou cognitivas e, por isso, é crucial uma abordagem multidisciplinar de cada caso.
Existe tratamento para o PPAC?
A criança com PPAC beneficiará de um programa de intervenção individualizado, ou treino auditivo, para estimular as habilidades auditivas que estão prejudicadas.
Esta intervenção deverá ser feita pelo Audiologista (treino formal em ambiente acusticamente controlado) e pelo Terapeuta da Fala (treino informal).
Orientações para Pais/ Professores de crianças com PPAC
Na escola:
- posicionar a criança o mais próximo do professor e longe de fontes de ruído (portas, janelas ou ventiladores);
- chamar a atenção da criança antes de falar;
- falar pausadamente, enfatizando palavras-chave;
- dar instruções verbais e escritas para as tarefas a executar.
Em casa:
- sempre que possível, auxiliar a criança nas atividades mais difíceis;
- criar situações diárias de comunicação entre Pais e Filho(a): contar histórias, cantar músicas, descrever as atividades do dia-a-dia.
Inês Martins
A escola e a prematuridade... o desafio
quarta-feira, 27 de março de 2019
Um dos grandes desafios que se coloca, hoje em dia, ao nível da educação são as dificuldades de aprendizagem não diretamente relacionadas com algum tipo de deficiência.
Muitas destas dificuldades são detetadas assim que a criança ingressa no primeiro ciclo de ensino básico, outras, apenas, ao nível do segundo ciclo, quando o currículo começa a ser mais exigente.
É frequente verificar-se que, algumas destas crianças estão identificadas como prematuras e, muitas vezes, grandes prematuras. Outras vezes verifica-se precisamente o contrário, ou seja, apesar de a criança ter sido prematura, a escola desconhece completamente a situação.
Estas crianças são crianças que, ao longo de todo o seu percurso escolar apresentaram dificuldades de aprendizagem, muitas vezes, até dificuldades de aquisição do mecanismo de leitura, escrita e cálculo, mas que nunca foram alvo de alguma avaliação. Quando essas dificuldades se agravam, e todo o processo de avaliação se despoleta, ao realizar a anamnese é comum os pais referirem que a criança foi prematura, mas correu sempre tudo bem. Não tendo afetada, nem necessitado de qualquer acompanhamento.
Verifica-se também casos de crianças identificadas como prematuras que, ao serem confrontadas com os desafios da escola, não apresentam dificuldades significativas. Algumas destas crianças beneficiaram do apoio do SNIPI (Serviço Nacional de Intervenção Precoce na Infância).
Este serviço, apetrechado de profissionais da saúde (terapeutas da fala, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e psicólogos) e da educação (educadores de infância) e, ainda, assistentes sociais é, de momento, um grande suporte e uma resposta de qualidade às necessidades de estimulação que os bebés prematuros apresentam, com o qual os pais/ famílias podem contar para enfrentar o grande desafio de cuidar de um bebé prematuro, proporcionando-lhe toda a estimulação e apoio de que este necessita para se desenvolver de forma harmoniosa.
Salienta-se que quanto mais precoce for a estimulação da criança, maiores são as probabilidades de esta não apresentar qualquer atraso de desenvolvimento, ou sequelas derivadas da prematuridade.
A estimulação motora irá proporcionar-lhe a possibilidade de rebolar, sentar, gatinhar e andar dentro da idade expectável permitindo-lhe, assim, estabelecer interações adequadas com o meio envolvente. Tendo em conta que os indivíduos aprendem em contacto com o meio, quanto maiores e mais diversificados forem esses contactos, maiores são as probabilidades de aprendizagem.
Além do trabalho que os vários profissionais desenvolvem diretamente com a criança, há também um grande trabalho desenvolvido com os pais, e ou cuidadores, no sentido de os capacitar para trabalhar com a criança, de forma a haver uma complementaridade de todo o trabalho desenvolvido.
Quanto mais efetivo for esse trabalho, maiores são as probabilidades de sucesso. Esse sucesso vai depender, sem qualquer dúvida, da qualidade da articulação e da intervenção estabelecidas conjuntamente entre os técnicos e as famílias.
Penso que o maior desafio para os pais, em grande parte dos casos, é a aceitação da mudança do paradigma, em que todo o saber e capacidade de ação está centrado nos técnicos intervenientes, para aquele em que eles próprios assumem uma importância igual, ou maior, à dos técnicos.
É certo que a maioria dos pais não possui conhecimento técnico para intervir com o bebé prematuro, pelo que precisa do apoio dos técnicos. Mas também é certo que os técnicos precisam do apoio dos pais/ cuidadores para trabalharem com a criança, e que os resultados do seu trabalho só são verdadeiramente visíveis quando a família/ cuidadores colabora com as equipas técnicas, realizando os exercícios e atividades que os técnicos lhes ensinam.
Quando não há intervenção técnica, mas há pais/ família/ cuidadores interventivos, a criança evolui.
Nesse sentido, o grande desafio que se coloca aos pais/ família/ cuidadores é mesmo o de serem capazes de assumir o papel principal na tríade.
Esse papel principal passa por proporcionarem à criança um apoio efetivo, não só durante a primeira infância, mas também ao longo das etapas seguintes.
Quando a criança completa seis anos e ingressa no primeiro ciclo, o apoio do SNIPI cessa, contudo os pais/ família poderão sempre recorrer aos serviços de educação, caso a criança ainda apresente dificuldades, no sentido de pedir apoios técnicos.
Os técnicos que trabalham com estas crianças valorizam igualmente a articulação com os pais/ família no sentido de lhes fornecerem estratégias para lidarem com as variadas situações, de modo a que a intervenção seja o mais sistémica possível. Ou seja, uma intervenção não apenas centrada na criança e no técnico, mas sim em todo o contexto em que a criança se insere.
Quanto mais efetivo for esse trabalho, maiores são as probabilidades de sucesso. Esse sucesso vai depender, sem qualquer dúvida, da qualidade da articulação e da intervenção estabelecidas conjuntamente entre os técnicos e as famílias.
Penso que o maior desafio para os pais, em grande parte dos casos, é a aceitação da mudança do paradigma, em que todo o saber e capacidade de ação está centrado nos técnicos intervenientes, para aquele em que eles próprios assumem uma importância igual, ou maior, à dos técnicos.
É certo que a maioria dos pais não possui conhecimento técnico para intervir com o bebé prematuro, pelo que precisa do apoio dos técnicos. Mas também é certo que os técnicos precisam do apoio dos pais/ cuidadores para trabalharem com a criança, e que os resultados do seu trabalho só são verdadeiramente visíveis quando a família/ cuidadores colabora com as equipas técnicas, realizando os exercícios e atividades que os técnicos lhes ensinam.
Quando não há intervenção técnica, mas há pais/ família/ cuidadores interventivos, a criança evolui.
Nesse sentido, o grande desafio que se coloca aos pais/ família/ cuidadores é mesmo o de serem capazes de assumir o papel principal na tríade.
Esse papel principal passa por proporcionarem à criança um apoio efetivo, não só durante a primeira infância, mas também ao longo das etapas seguintes.
Quando a criança completa seis anos e ingressa no primeiro ciclo, o apoio do SNIPI cessa, contudo os pais/ família poderão sempre recorrer aos serviços de educação, caso a criança ainda apresente dificuldades, no sentido de pedir apoios técnicos.
Os técnicos que trabalham com estas crianças valorizam igualmente a articulação com os pais/ família no sentido de lhes fornecerem estratégias para lidarem com as variadas situações, de modo a que a intervenção seja o mais sistémica possível. Ou seja, uma intervenção não apenas centrada na criança e no técnico, mas sim em todo o contexto em que a criança se insere.
Os pais também podem ser fisioterapeutas, terapeutas da fala e ocupacionais, educadores, professores e psicólogos. Precisarão, para o fazer, do apoio de técnicos especializados. Precisarão do apoio dos professores.
O grande desafio da tríade pais - criança - professores será o de conseguir trabalhar de forma articulada valorizando os saberes de cada um e criando oportunidades de interação e desenvolvimento. O trabalho de equipa é por isso fundamental.
Em modo de conclusão: quando o bebé nasce prematuro, os pais podem recorrer, por si só, ao SNIPI e pedir para que a criança seja acompanhada. Poderão recorrer a este serviço até a criança completar 6 anos. Depois dessa idade poderão recorrer às equipas de apoio educativo das escolas.
É importante ter sempre um olhar atento para uma criança prematura, pois essa criança não esteve o tempo necessário na barriga da mãe para que todos os processos de maturação ocorressem.
Mesmo muito, muito importante é o dar-lhe colo!
Muito colo! Todas as crianças precisam de colo, as prematuras ainda mais.
Só com muito amor, carinho, atenção e compreensão as crianças poderão desenvolver-se de forma harmoniosa e estruturada. Quando educada num ambiente caloroso, todas as dificuldades que surgem são sempre mais facilmente ultrapassadas.
Um dos motores para o sucesso é, por isso mesmo, o colo no sentido vastíssimo da palavra!
Teresa Moreno
Teresa Moreno
segunda-feira, 25 de março de 2019
Licenciou-se em Educação de Infância, pela Escola Superior de Educação Jean-Piaget de Almada e, mais tarde, especializou-se em Necessidades Educativas Especiais, na Escola Superior de Educação de Beja.
Exerce a sua atividade docente no Agrupamento de Escolas de Moura, como Professora de Educação Especial.
Em fevereiro de 2016 editou o seu primeiro livro, Maria Flor, pela Chiado.
Em 2017 foi convidada pela mesma editora a participar no projeto Três Quartos de Um Amor, editado em fevereiro de 2018.
Em novembro de 2018 dois contos seus foram publicados na colectânea de contos Era uma vez... o conto dos poetas, editada pelo grupo de poesia da Beira-Ria.
Convulsões febris
quarta-feira, 20 de março de 2019
Hoje falaremos sobre uma situação que, apesar de benigna, representa uma causa frequente de ida ao Serviço de Urgência e é causadora de um grande sofrimento e angústia nos pais/ cuidadores: as convulsões febris.
Segundo a Sociedade Portuguesa de Neuropediatria, a Convulsão febril "é uma convulsão que surge numa criança saudável, entre os 6 meses e os 6 anos de idade, no início de uma doença febril." Está associada à subida térmica e, segundo alguns autores, tem o seu pico aos 18 meses. Nalgumas crianças pode surgir com temperaturas corporais inferiores a 38ºC.
Cerca de 5% das crianças (1 em cada 5) têm convulsões febris. Acredita-se que o sistema nervoso central destas é mais vulnerável à subida rápida de temperatura devido à sua imaturidade, o que as torna suscetíveis de desenvolver uma convulsão febril, que consiste numa ativação excessiva dos neurónios. Para além deste fator, a idade mais jovem da criança e a existência de história familiar de convulsões pode aumentar o risco desta situação.
Pelo sofrimento que causa em quem assiste ao episódio, este parece durar uma eternidade. No entanto, na maior parte das vezes são episódios breves e que passam sem necessidade de qualquer intervenção. Este sofrimento é em grande parte causado pelas características inerentes à convulsão febril, que se pode tornar muito assustadora para quem a vivencia pela primeira vez.
Na maioria das situações, as crianças perdem os sentidos, reviram os olhos, ficam com o corpo rígido e apresentam tremores dos membros superiores e inferiores. Podem ainda apresentar salivação excessiva, ficar com os lábios roxos ou urinar. Após alguns segundos/ minutos (ma maior parte das vezes antes dos 5 minutos), os movimentos param e segue-se um período em que a criança fica mole e adormece, acordando bem. Por norma, as convulsões febris são autolimitadas, ou seja, passam sozinhas sem que seja necessário qualquer intervenção.
Numa situação de convulsão febril é muito importante evitar o pânico e manter a calma. Isto é essencial para que os pais consigam observar as características da convulsão e posteriormente descrevê-la ao profissional de saúde.
Como devemos atuar?
- Vigiar os movimentos apresentados pela criança e registar hora de início e de fim;
- Deitar a criança de lado, proteger a cabeça e afastar todos os objetos onde a criança se possa magoar (por exemplo: os óculos);
- Não colocar nada na boca da criança, nomeadamente objetos ou dedos;
- Arrefecer o ambiente;
- Promover o arrefecimento corporal através da aplicação de envolvimentos tépidos e administração de Paracetamol supositório;
- Não tentar que a criança beba ou coma algo, mesmo que seja medicação para baixar a febre;
- Quando não é a primeira convulsão, os pais podem já ter indicação médica para administrar medicação específica para parar a crise. Esta medicação nunca deve ser administrada sem prescrição médica e a dose varia segundo o peso da criança.
As situações em que se deve recorrer ao Hospital são as seguintes:
- Quando é a primeira vez que a criança apresenta uma convulsão febril;
- Se a convulsão durar mais do que 5-10 minutos;
- Se os movimentos apresentados forem só de um lado ou se após a crise a criança só mexer um lado do corpo;
- Se após acordar, a criança se apresentar muito prostrada, com gemido ou sonolência ou com sensação clara de doença;
- Se tiver mais do que uma crise por dia ou se não recuperar após as crises.
O uso de antiepiléticos (medicação de trata as convulsões) não está indicado para prevenir as convulsões febris. Podem ser administrados antipiréticos (medicação para baixar a febre) em situação de febre, mesmo com temperaturas inferiores a 38ºC, como tentativa de evitar a convulsão febril. No entanto, não está provado que esta medida reduza a probabilidade de esta ocorrer.
Cerca de 1/3 das crianças voltam a ter convulsão febril. O risco de ocorrer uma nova crise é maior nos 6 a 12 meses após a primeira crise e se esta tiver ocorrido no primeiro ano de vida, bem como se existir história familiar de convulsões. Por este motivo, é importante que os cuidadores estejam atentos a situações de doença e que vigiem a temperatura corporal.
Apesar de assustadoras, as convulsões febris não causam problemas a longo prazo, nomeadamente lesões cerebrais ou epilepsia. Cerca de 1 a 2% das crianças que apresentam convulsões febris desenvolvem epilepsia, risco que é ligeiramente superior ao risco da população em geral.
o pai, a mãe e eu
Hipoterapia - Terapia com cavalos
quarta-feira, 13 de março de 2019
Hipoterapia é uma terapia assistida por cavalos, disponibilizada por vários Centros Hípicos. Contudo, este termo é comummente empregue para classificar uma terapia que, teoricamente, se subdivide. Clarificando a ideia, o uso do cavalo para fins terapêuticos assume duas valências: hipoterapia com objetivos mais centrados em questões neuromotoras e equitação terapêutica, cujos objetivos são a psicomotricidade, a cognição, ... Apesar do nome teoricamente não ser o adequado, em termos práticos e técnicos desenvolvem o que é considerado necessário para o utente, sendo em sessão trabalhadas as áreas neuromotoras e psicomotoras.
Além da hipoterapia e equitação terapêutica, ainda está incluso nesta valência associada ao cavalo a equitação adaptada, que exclui as questões terapêuticas, focando-se na competição ou lazer.
Porquê o cavalo?
O passo do cavalo com os seus movimentos tridimensionais corresponde, para quem monta, à marcha normal do ser humano, ou seja, para quem não possui capacidades físicas para caminhar mas consiga montar, será um momento em que conseguirá enviar um grande estímulo sensorial pelo sistema nervoso central, além de todo um trabalho postural que está inevitavelmente a ser desenvolvido para manter o equilíbrio no dorso do cavalo. Juntamente com o meio em que decorre a sessão, são promovidas vivências essenciais em áreas cognitivas, físicas e emocionais.
Benefícios da Hipoterapia/ equitação terapêutica:
Benefícios da Hipoterapia/ equitação terapêutica:
- Confiança: a relação com o cavalo permite ao utente desenvolver a sua autoconfiança;
- Força: fortalecimento do tónus muscular;
- Equilíbrio: melhoramento e correção da postura;
- Coordenação: ao longo da sessão necessita de coordenar ações;
- Atenção: na sessão necessita de manter o foco e concentração;
- Mobilidade: melhoramento da flexibilidade;
- Prazer: estão inerentes momentos de ternura e emoções novas.
Para além destes benefícios, existem todos os que estão inerentes aos objetivos específicos delineados pelo técnico responsável pela sessão.
Quem pode frequentar?
As sessões podem ser frequentadas por qualquer pessoa, desde crianças a idosos, salvo se apresenta contraindicações para a equitação. É de salientar a importância, tal como em qualquer outra situação, de contactar o médico para que não ocorra nenhum inconveniente. Assim sendo, seguem alguns diagnósticos comuns em sessões de hipoterapia/ equitação terapêutica:
- Perturbação do Espetro do Autismo;
- Síndrome de Down;
- Atraso global do desenvolvimento;
- Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção;
- Défice cognitivo;
- Sem diagnósticos com alterações cognitivas e/ ou físicas;
- ...
Estruturação da sessão:
A sessão de hipoterapia/ equitação terapêutica é estruturada e pensada pelo terapeuta de modo individualizado. Ao longo da mesma, em parceria com o monitor, é transversal aos utentes o trabalho de aspetos corporais (mobilização) e questões equestres como manutenção do cavalo (escovagem), andar a passo, trote e galope. São também abordadas questões terapêuticas de caráter individualizado como cognição, praxias, estruturação espacial, ...
No que concerne à duração da sessão, esta pode variar de Centro para Centro. É habitual em hipoterapia de privados (o Centro disponibiliza serviço aos Pais) 30 minutos semanais. Quando falamos do serviço de hipoterapia contratado por escolas e grupos, esta pode variar bastante, desde 15 minutos semanais a 20 minutos quinzenais.
O maior impedimento à sessão é, por norma, a gestão emocional da criança. Ou seja, se a criança mesmo sendo agressiva consigo e com os outros se acalmar no cavalo, é possível que a sessão decorra normalmente. Contudo, se a criança expressar agressividade no cavalo, é possível que se termine de imediato. Em casos de utentes com Autismo, é frequente ocorrerem situações destas, embora pontualmente, pais, terapeutas e professores consigam usar estratégias que permitem estabilizar a criança e continuar a sessão.
Elementos envolvidos na sessão:
- Monitor de equitação: responsável pela segurança e manutenção/ manuseamento do cavalo;
- Terapeuta: responsável pela definição dos objetivos para a sessão (podem variar consoante a especialização/ formação de base do técnico);
- Pais e familiares: porto de abrigo, responsáveis pela educação, segurança, ...
O importante é que esta equipa mantenha um objetivo comum, com partilha de informação essencial ao trabalho em equipa.
Fátima Sousa
Fátima Sousa
segunda-feira, 11 de março de 2019
Fátima Sousa é Psicomotricista desde 2015. Licenciada em Reabilitação Psicomotora, pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Exerce funções como Psicomotricista em centros de estudos e clínica. Terapeuta responsável em dois Centros Hípicos de Felgueiras e Lousada. Trabalhou como Professora de AEC de Psicomotricidade em unidades de ensino especializado de 1º ciclo.
É apaixonada pelo trabalho com os mais novos.
Alimentação e rendimento escolar
sexta-feira, 8 de março de 2019
É sabido que uma correta alimentação tem um papel crucial no crescimento e desenvolvimento das crianças e adolescentes. Mas terá algum impacto no rendimento escolar?
O desenvolvimento cerebral inicia-se nas primeiras semana de gestação, a partir do tubo neural, sendo particularmente acentuado entre o último trimestre da gravidez e os dois primeiros anos de vida e prolongando-se durante a infância e a adolescência. Desta forma, um fornecimento adequado de nutrientes e energia nos primeiros anos de vida assume uma importância acrescida. Um padrão alimentar inadequado nesta fase, tanto do ponto de vista quantitativo, pode comprometer o desenvolvimento e capacidade cognitiva das crianças e adolescentes, determinantes para o seu aproveitamento escolar.
Um dos aspetos mais estudados nesta relação da alimentação com o rendimento escolar é o consumo do pequeno-almoço. A realização desta refeição quebra o jejum noturno, fornecendo a energia necessária ao funcionamento cerebral. Este aspeto merece especial atenção nas crianças, uma vez que o metabolismo da glicose (fonte preferencial de energia para o cérebro) é bastante mais elevado nos primeiros anos de vida, sendo, por isso, ainda mais importante repor e estabilizar os seus níveis após o jejum noturno. Por este motivo, tomar o pequeno-almoço (em comparação com a omissõa desta refeição) contribui para uma melhor capacidade de atenção e memória, essenciais a um bom rendimento escolar. Para além disto, a realização desta refeição por parte dos mais novos está associada a um menor risco de desenvolver obesidade e a um padrão alimentar mais saudável ao longo do dia.
Idealmente, esta refeição deve ser composta por uma fonte de laticínios (como leite ou iogurte), de cereais (como o pão ou aveia) e fruta (dependendo do restante dia alimentar). Sempre que possível, deve ser realizada em casa, porque para além de ser mais económico, promover o convívio em família e ser realizada num ambiente mais calmo, a tendência para escolher alimentos menos saudáveis é menor!
No que toca ao tipo de alimentos consumidos pelos mais novos, estudos recentes demonstraram uma associação significativa entre o consumo diário de vegetais (em pelo menos uma das refeições diárias) e de duas ou mais peças de fruta por dia a melhorias ao nível da capacidade de escrita.
Pelo contrário, uma ingestão elevada de bebidas açucaradas, snacks salgados e fast food parecem contribuir, de forma significativa, para piores desempenhos ao nível da escrita, leitura, gramática e matemática.
A adesão à dieta mediterrânica, caracterizada pelo consumo elevado de fruta, hortícolas, cereais integrais, leguminosas e frutos gordos, um consumo moderado de carne, peixe e laticínios bem como pela utilização do azeite como fonte de gordura preferencial, também tem vindo a ser associada a um melhor desempenho cognitivo e sucesso escolar em crianças e adolescentes. Já uma dieta mais ocidental, com predomínio de alimentos e snacks processados, carnes vermelhas, fritos e bebidas açucaradas e, por isso, mais rica em gordura saturada, açúcar e sal e pobre em nutrientes essenciais ao desenvolvimento, apresenta, como seria de esperar, o efeito contrário.
Um outro aspeto muito importante e muitas vezes negligenciado é uma adequada hidratação. Sendo o cérebro de uma criança/ adolescente constituído por cerca de 65-80% de água (dependendo da idade), é natural que esta exerça um importante papel no funcionamento, nomeadamente ao nível do transporte de oxigénio. Por esse motivo, a desidratação, mesmo que ligeira, pode comprometer a função cognitiva ao prejudicar a memória, atenção e concentração e aumentar os níveis de cansaço. Assegure-se de que o seu filho tem sempre água disponível ao longo do dia, incentivando-o a beber mesmo que não tenha sede!
Uma alimentação saudável na infância e adolescência é essencial para manter um peso saudável e prevenir o surgimento de patologias a curto e longo prazo mas, como vimos, também assume um importante impacto no desenvolvimento cognitivo e aproveitamento escolar. Tudo, mais do que razões para que, desde cedo, sejam incutidos hábitos alimentares adequados.
Um dos aspetos mais estudados nesta relação da alimentação com o rendimento escolar é o consumo do pequeno-almoço. A realização desta refeição quebra o jejum noturno, fornecendo a energia necessária ao funcionamento cerebral. Este aspeto merece especial atenção nas crianças, uma vez que o metabolismo da glicose (fonte preferencial de energia para o cérebro) é bastante mais elevado nos primeiros anos de vida, sendo, por isso, ainda mais importante repor e estabilizar os seus níveis após o jejum noturno. Por este motivo, tomar o pequeno-almoço (em comparação com a omissõa desta refeição) contribui para uma melhor capacidade de atenção e memória, essenciais a um bom rendimento escolar. Para além disto, a realização desta refeição por parte dos mais novos está associada a um menor risco de desenvolver obesidade e a um padrão alimentar mais saudável ao longo do dia.
Idealmente, esta refeição deve ser composta por uma fonte de laticínios (como leite ou iogurte), de cereais (como o pão ou aveia) e fruta (dependendo do restante dia alimentar). Sempre que possível, deve ser realizada em casa, porque para além de ser mais económico, promover o convívio em família e ser realizada num ambiente mais calmo, a tendência para escolher alimentos menos saudáveis é menor!
No que toca ao tipo de alimentos consumidos pelos mais novos, estudos recentes demonstraram uma associação significativa entre o consumo diário de vegetais (em pelo menos uma das refeições diárias) e de duas ou mais peças de fruta por dia a melhorias ao nível da capacidade de escrita.
Pelo contrário, uma ingestão elevada de bebidas açucaradas, snacks salgados e fast food parecem contribuir, de forma significativa, para piores desempenhos ao nível da escrita, leitura, gramática e matemática.
A adesão à dieta mediterrânica, caracterizada pelo consumo elevado de fruta, hortícolas, cereais integrais, leguminosas e frutos gordos, um consumo moderado de carne, peixe e laticínios bem como pela utilização do azeite como fonte de gordura preferencial, também tem vindo a ser associada a um melhor desempenho cognitivo e sucesso escolar em crianças e adolescentes. Já uma dieta mais ocidental, com predomínio de alimentos e snacks processados, carnes vermelhas, fritos e bebidas açucaradas e, por isso, mais rica em gordura saturada, açúcar e sal e pobre em nutrientes essenciais ao desenvolvimento, apresenta, como seria de esperar, o efeito contrário.
Um outro aspeto muito importante e muitas vezes negligenciado é uma adequada hidratação. Sendo o cérebro de uma criança/ adolescente constituído por cerca de 65-80% de água (dependendo da idade), é natural que esta exerça um importante papel no funcionamento, nomeadamente ao nível do transporte de oxigénio. Por esse motivo, a desidratação, mesmo que ligeira, pode comprometer a função cognitiva ao prejudicar a memória, atenção e concentração e aumentar os níveis de cansaço. Assegure-se de que o seu filho tem sempre água disponível ao longo do dia, incentivando-o a beber mesmo que não tenha sede!
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| Tabela 1 - Recomendações da ingestão hídrica para os portuguese (Litros/ dia). Instituto de Hidratação e Saúde. |
Uma alimentação saudável na infância e adolescência é essencial para manter um peso saudável e prevenir o surgimento de patologias a curto e longo prazo mas, como vimos, também assume um importante impacto no desenvolvimento cognitivo e aproveitamento escolar. Tudo, mais do que razões para que, desde cedo, sejam incutidos hábitos alimentares adequados.
Maria Inês Cardoso
Receitas saudáveis para toda a Família
Quando o tema é alimentação saudável, uma das palavras de ordem é criatividade.
Assim, para a rubrica deste mês trazemos uma nova sugestão de um pequeno-almoço e uma sobremesa saudável do Miolo de Noz. Esperamos que gostem e que nos enviem feedback.
Pequeno-almoço
Ingredientes:
- Aveia e chia adormecidas
- Iogurte grego ligeiro
- Pêssego
- Banana
- Framboesas
Modo de preparação:
- Misture a chia com a aveia e adicione o iogurte.
- Esmague metade da banana e do pêssego e junte à mistura de aveia.
- Colocar a restante fruta no topo e está pronto a comer.
Bolo de Banana
Ingredientes:
- 4 ovos
- 1/3 chávena de óleo vegetal (sugestão: de amendoim)
- 4 bananas médias ou 3 grandes bem maduras (em que uma servirá para a decoração do bolo)
- 1 colher de açúcar de coco ou mascavado
- canela em pó
- 150g de flocos de aveia finos
- 2 colheres de sopa de fermento
Modo de preparação:
- No processador triturar as bananas. Juntar os ovos, o óleo e o fermento.
- Forrar a forma com papel manteiga (não precisa uma forma muito alta porque o bolo não cresce muito).
- Cobrir o fundo da forma com açúcar e canela e sobre esta mistura colocar uma banana cortada longitudinalmente.
- Juntar a mistura do bolo e levar ao forno pré-aquecido a 180º, durante 35 minutos ou menos (dependendo da potência do forno).
Bom apetite, Famílias!! Até ao abril!
o pai, a mãe e eu
O desafio de conciliar a parentalidade com a conjugalidade
quarta-feira, 6 de março de 2019
Um dos grandes desafios que a gravidez e, mais ainda, a chegada de um bebé traz ao casal é conciliar a conjugalidade com a parentalidade.
É frequente que o casal fique com pouco tempo para se dedicar à relação a dois, pois as tarefas, as preocupações, os pensamentos e mesmo as novas emoções associadas à existência de um bebé retiram tempo e até disponibilidade interna para o casal se dedicar um ao outro. Aliás, há até alguns mitos que levam a que, principalmente a mulher, se sinta algo culpada e com menor qualidade materna quando sente desejo/ vontade de desfrutar de momentos gratificantes com o seu companheiro ou de tirar alguns momentos do seu tempo para prazeres mais individuais. Como se ser Mãe devesse ser a única fonte de prazer e ao gratificar-se com outras coisas estivesse a "abandonar" o seu bebé, logo a ser "má Mãe".
Este tipo de pensamentos e sentimentos atualmente não fazem qualquer sentido a não ser reportarem a outros momentos culturais e sociais em que as mulheres davam sentido à sua vida unicamente pelo materno.
Na atualidade, a mulher gratifica-se em várias áreas podendo o materno ser uma delas. Sabemos, pela literatura científica e pela nossa experiência clínica, que a parentalidade será tanto melhor vivida quanto mais o casal se sentir gratificado na sua relação "conjugal" e, cada um dos seus elementos (mulher e homem) se sinta melhor consigo próprio enquanto indivíduo.
Estudos recentes apontam para uma relação direta entre a qualidade da relação do casal antes da gravidez e após o parto e a capacidade da mulher em superar o cansaço e a perturbação ligeira do humor (conhecida por blues pós-parto).
A chegada de um bebé não deve, não pode, conduzir a uma desvalorização do prazer individual e conjugal... antes pelo contrário!
O grande desafio da parentalidade é precisamente conseguir conciliá-la de uma forma harmoniosa com a conjugalidade e com a individualidade num dia-a-dia que continua a ter 24 horas.
É natural que nos primeiros dias após a chegada do bebé, este seja a prioridade até porque se está a iniciar um novo processo de aprendizagem com um novo ser que não se conhece, que é exigente e que apela ao cuidado. É natural que cada um dos elementos do casal queira (e tenha que) dedicar-se mais a estas novas tarefas e às emoções e afetos associados, mas tal não deverá nunca retirar algum tempo para o casal se olhar, se mimar, se valorizar mutuamente. Pode ser num jantar romântico à meia-noite se só for possível assim, mas que seja! Será, com certeza, uma descoberta de outra forma de estar juntos, mas que pode e deve ser também gratificante e prazenteira.
Não devemos esquecer que o bem-estar emocional dos Pais é a SAÚDE MENTAL dos filhos.
É frequente que o casal fique com pouco tempo para se dedicar à relação a dois, pois as tarefas, as preocupações, os pensamentos e mesmo as novas emoções associadas à existência de um bebé retiram tempo e até disponibilidade interna para o casal se dedicar um ao outro. Aliás, há até alguns mitos que levam a que, principalmente a mulher, se sinta algo culpada e com menor qualidade materna quando sente desejo/ vontade de desfrutar de momentos gratificantes com o seu companheiro ou de tirar alguns momentos do seu tempo para prazeres mais individuais. Como se ser Mãe devesse ser a única fonte de prazer e ao gratificar-se com outras coisas estivesse a "abandonar" o seu bebé, logo a ser "má Mãe".
Este tipo de pensamentos e sentimentos atualmente não fazem qualquer sentido a não ser reportarem a outros momentos culturais e sociais em que as mulheres davam sentido à sua vida unicamente pelo materno.
Na atualidade, a mulher gratifica-se em várias áreas podendo o materno ser uma delas. Sabemos, pela literatura científica e pela nossa experiência clínica, que a parentalidade será tanto melhor vivida quanto mais o casal se sentir gratificado na sua relação "conjugal" e, cada um dos seus elementos (mulher e homem) se sinta melhor consigo próprio enquanto indivíduo.
Estudos recentes apontam para uma relação direta entre a qualidade da relação do casal antes da gravidez e após o parto e a capacidade da mulher em superar o cansaço e a perturbação ligeira do humor (conhecida por blues pós-parto).
A chegada de um bebé não deve, não pode, conduzir a uma desvalorização do prazer individual e conjugal... antes pelo contrário!
O grande desafio da parentalidade é precisamente conseguir conciliá-la de uma forma harmoniosa com a conjugalidade e com a individualidade num dia-a-dia que continua a ter 24 horas.
É natural que nos primeiros dias após a chegada do bebé, este seja a prioridade até porque se está a iniciar um novo processo de aprendizagem com um novo ser que não se conhece, que é exigente e que apela ao cuidado. É natural que cada um dos elementos do casal queira (e tenha que) dedicar-se mais a estas novas tarefas e às emoções e afetos associados, mas tal não deverá nunca retirar algum tempo para o casal se olhar, se mimar, se valorizar mutuamente. Pode ser num jantar romântico à meia-noite se só for possível assim, mas que seja! Será, com certeza, uma descoberta de outra forma de estar juntos, mas que pode e deve ser também gratificante e prazenteira.
Não devemos esquecer que o bem-estar emocional dos Pais é a SAÚDE MENTAL dos filhos.
Maria de Jesus Correia
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