Como diminuir a dor da vacina?
Os procedimentos dolorosos, ocorram eles em que momento da vida ocorrerem, são situações que promovem stress. Stress nas crianças e nas famílias que assistem com a frustração provocada pela ideia de que nada podem fazer.
Antigamente pensava-se que quanto mais pequena e prematura fosse a criança, menor a sua sensibilidade à dor. Pensamento completamente incorreto e já com vários estudos realizados que o inviabilizam.Numa Neonatologia ou
outro serviço de internamento em pediatria dispomos de medidas não
farmacológicas (à parte a contenção, luminosidade, etc) que podemos utilizar e
que ajudam na minimização deste stressor.
Nos centros de saúde não
dispomos dessas alternativas, mas há sempre técnicas que poderemos utilizar e
que são medidas não farmacológicas que denunciam boas práticas de cuidados. Vamos
então enumera-las.
- Amamentação: Amamentar
o seu bebé durante a realização do teste do pezinho ou durante a administração
de vacinas diminui consideravelmente a sensação de dor. Acontece que, a partir
dos 4 meses esta medida poderá começar a deixar de ser uma medida eficaz, dado
que o bebé começa a ficar mais atento ao que o rodeia, deixando de mamar
assim que alguém se aproxima.
- Chupeta: caso não
amamente ou o seu filho utilize a chupeta e seja uma forma de o acalmar, esta consegue fazer magia e regular a criança nesta altura.
- Contenção e tom de voz
(antes dos 12 meses de vida do bebé): a alternativa à amamentação, caso isso
não coloque em causa a segurança de nenhum dos intervenientes (pais, bebé,
enfermeira), é mesmo a contenção. Pode pegar no seu bebé ao colo e
aconchega-lo, falar-lhe docemente e encorajá-lo.
Assim que o bebé
completa 12 meses de vida, as vacinas deixam de ser administradas nas pernas e
passam a sê-lo nos braços.
Nesta altura a
contenção, o abraço, é fundamental.
É importante saber que a
sua reação perante este procedimento influenciará sobremaneira a forma como o
seu filho reagirá. Por isso mantenha o tom de voz tranquilo e baixo, a
contenção que faz com que perceba que está ali para ele e a apoiá-lo. No final,
independentemente da reação que ele tiver, elogie-o. Diga-lhe que foi muito
corajoso e que não tem mal chorar. Que percebe que tenha sido doloroso e que entende que essa foi a melhor forma que encontrou para se expressar.
Dependendo da idade da
criança, poderá prepará-lo para o procedimento que terá lugar no dia a seguir
ou daqui a alguns minutos (para as crianças mais pequenas).
É importante que a criança
se sinta compreendida, apoiada e respeitada, já que a vacinação é o "bicho-papão" dos mais pequenos (e de alguns graúdos também).
o pai, a mãe e eu
A vacina Rotavírus
Hoje falo sobre a vacina do Rotavírus, vacina que protege contra as gastroenterites.
É importante
desmistificar uma situação. Esta vacina não evita que o seu filho venha a ter
gastroenterites. O que acontece é que ela protege da severidade da
situação.
É uma vacina que atualmente apenas
é gratuita para alguns bebés considerados de risco, nomeadamente os bebés
prematuros que tenham nascido com menos de 32 semanas e/ ou com baixo peso
(< de 2500g), não podendo estar internados na altura em que devem ser
vacinados.
É importante ainda saber
que com > 27 semanas poderão fazer Rotarix e com 25 semanas ou mais deverão
fazer Rotateq.
Em que diferem estas
duas marcas da mesma vacina? Principalmente em dois aspetos:
- no número de doses
(Rotarix é de duas doses e Rotateq 3 doses);
- a Rotarix é uma vacina
atenuada e a Rotateq é uma vacina viva.
Por isso, abordem esta questão com a Enfermeira, Médico Assistente e/ ou Pediatra pelo menos no primeiro mês de vida, já que o seu início deverá ser aos 2 meses de vida.
Alertar para o facto de que, embora esta vacina seja oral (na boca), esta deverá ser administrada no Centro de Saúde (ou Hospital), por um profissional de saúde.
Por último, apenas
alertar para os cuidados a ter após administração.
Se estamos a vacinar
contra a gastroenterite, os sintomas que se poderão verificar no bebé são os
desta doença. Por isso falamos de vómitos, diarreia e eventualmente febre.
Poderá, tal como acontece com as outras vacinas, não ter qualquer tipo de
sintomatologia.
Da vossa parte, pais,
avós, amas, educadoras e auxiliares, o que necessitam fazer é lavar muito bem
as mãos após mudar a fralda a este bebé.
As fraldas deverão ir
para um saco à parte do lixo doméstico, para evitar contaminação de quem
recolhe o lixo, caso o saco se rompa.
Não esqueçamos do tema
da campanha. “Vacinas: Na procura de uma vida longa e saudável.”
o pai, a mãe e eu
Vacinas na Prematuridade
No entanto, existem 2
exceções que poderão significar o atraso da administração das primeiras vacinas
e, consequentemente, das vacinas dos 2 meses.
As primeiras vacinas de
qualquer bebé são a BCG (Vacina contra a Tuberculose) e a VHB (Vacina contra a
Hepatite B), embora em boa verdade, a BCG só se esteja a administrar a crianças
consideradas elegíveis, porque pertencem ao que denominamos grupos de risco.
A exceção no caso do bebé prematuro é que a BCG (caso pertençam ao grupo de risco) só pode ser
administrada quando alcançar os 2kg. Pode ser administrado até aos 12 meses, sem
ser necessária outra intervenção ou teste.
No caso da VHB, que no
bebé de termo é dada no dia em que nasce ou antes de ter alta da maternidade,
só poderá ser administrada assim que o bebé prematuro adquirir 2Kg ou um mês de
vida (aquele que alcançar primeiro).
Para estas e restantes
vacinas, dever-se-á ter em conta a situação de saúde do bebé e a idade
gestacional. Isto porque, um bebés que tenha nascido com 28 semanas ou menos,
deverá ser vacinado no hospital, quer esteja ou não internado. É ainda
indicação da DGS que permaneça em vigilância durante 6 a 8h de forma a
despistar alterações que possam surgir a nível cardio-respiratório.
o pai, a mãe e eu
Semana Europeia da Vacinação 2022
Esta semana, com início no dia de hoje, celebra-se mais uma Semana Europeia da Vacinação.
Após um período demasiado desafiante onde a vacinação não
evitou as infeções, mas teve com toda a certeza uma diminuição na sua
severidade, mais uma vez a vacinação mostrou a sua importância na vida da
população.
É um facto que nem todas as crianças (e até mesmo adultos)
têm ao seu dispor um Plano Nacional de Vacinação tão completo e gratuito como
acontece em Portugal.
É também um facto que com a pandemia, mesmo no nosso país,
muitas crianças permanecem com vacinas em atraso, vacinas essas muito importantes
para a manutenção da sua saúde.
Este ano, o tema da campanha é “Vacinas: Na procura de uma vida longa
e saudável”.
Historicamente falando, as vacinas
conseguiram erradicar algumas doenças e diminuir a incidência de outras. No
entanto, é importante que continuemos a vacinar os nossos filhos, não só para
favorecer a sua proteção individual,
como para promover a imunidade de grupo.
Há um artigo publicado aqui no blogue, em 2018, redigido pelo Enfermeiro Ricardo Ferreira e que é denominado Vacinar: Sim ou Não?
Passem por lá e deem uma espreitadela
e caso achem pertinente, por favor, façam-no chegar a mais pessoas
partilhando-o.
Por aqui, qual a vossa opinião
relativamente à vacinação de uma forma geral?
Os vossos filhos têm as vacinas em
dia?
o pai, a mãe e eu
Os medos na infância e adolescência
O medo! O medo é um estado emocional que acontece após se tomar consciência do perigo ou ameaça suscitada por algo ou alguém, podendo ele ser real, imaginário ou não passar de uma hipótese.
E embora se possa pensar que o medo é algo nocivo, por ser limitador, desengane-se! É o medo que promove a capacidade de sobrevivência, ajudando-nos na tomada de decisão e impedindo que nos coloquemos em risco.
Quem de nós ainda não teve uma situação que o deixou mais receoso ou que quase o paralisou? O mesmo ocorre com a criança, com a agravante desta ser imatura e poder existir uma dificuldade em expressar as suas emoções adequadamente.
É importante ter em atenção também que é normal que a criança apresente os mesmos receios verificados nos seus pais e que para cada etapa do desenvolvimento existam situações características, que promovem o medo na criança. Para a conseguirmos ajudar, é importante que compreendamos o que é o medo e as situações que a podem deixar mais insegura. Só dessa forma vamos conseguir ajudá-la a enfrentá-los e controlá-los.
Comecemos então por conhecer os medos característicos de cada idade.
Então o que podemos fazer para ajudar a criança a lidar com estas situações causadoras de medo? Obviamente que as sugestões apresentadas deverão ter em conta a idade da criança.
- Nunca ridicularizar a criança;
- Manter-se tranquilo e acalmar a criança sempre que esta se mostre receosa;
- Aproximar/expor gradualmente a criança à situação que lhe causa medo ou permitir que ela observe outra criança a lidar favoravelmente com essa situação (por exemplo: brincar com um cão);
- Ensinar estratégias de relaxamento (exemplo: cantar uma música, contar uma história, dançar, técnicas de respiração, ...);
- Utilizar o humor, o riso e até a raiva para desmistificar o objeto do medo;
- Uso de um objeto de segurança (por exemplo: dormir com um peluche);
- Não utilizar os medos para conseguir obter um comportamento favorável por parte da criança. Por exemplo: "se não comeres tudo, o papão vem buscar-te", "se não te portares bem, a enfermeira dá-te uma vacina";
- Abordar as preocupações do dia-a-dia com o adolescente e fazer uma escuta ativa. Mais do que conselhos, mostre-lhe que está ali para o ajudar a lidar com a situação da melhor forma.
Tendo em conta que há medos característicos de cada faixa etária devido à imaturidade inerente, espera-se que estes medos sejam limitados no tempo e reversíveis. No entanto, é importante estar atento às reações das crianças e à evolução da situação.
Assim sendo, deve preocupar-se se:
- o medo for algo muito intenso, assim como a angústia vivenciada pela criança, sendo o objeto do medo evitado ativamente;
- o medo interfere com as atividades de vida diária e não atenua com técnicas de relaxamento/ distração;
- a preocupação/ ansiedade se prolonga muito no tempo;
- o medo não corresponde ao "normal" para a faixa etária;
- compromete o bem-estar da criança e leva a uma regressão de comportamentos (exemplo: voltar a usar chupeta após longo tempo sem a utilizar).
No que diz respeito ao adolescente, embora passe com frequência a ideia que não necessita dos adultos, a sua maior ambição é perceber que os pais estarão sempre lá para o apoiar, mesmo que não tenha tomado as melhores decisões.
Tal como referi no início, o medo faz-nos evitar situações de perigo, mas o nosso caminho é muito mais seguro se soubermos que não o trilhamos sozinhos.
Em caso de dúvidas deverá sempre procurar ajuda junto dos profissionais de saúde.
o pai, a mãe e eu
Aranha, sim ou não?
Qualquer idade é propícia a acidentes, tendo em conta a fase do desenvolvimento e as competências que a criança tem nesse momento, assim como a sua mobilidade. Num futuro próximo abordaremos outros tipos de acidentes, no entanto parece-me ser importante falar sobre os andarilhos, mais conhecidos como aranhas. Sim, ou não à sua utilização?
A partir dos 6
meses a criança já deverá conseguir sentar-se sem apoio e, por isso, terá outra
perceção do espaço que a rodeia. Nesta altura já rebola e rasteja, prontinha a
começar a gatinhar. Esta maior independência coloca ao seu alcance objetos e
situações que a deixam em perigo, enquanto a mãe e o pai piscam um olho. Assim,
muitos pais, na melhor das intenções preferem sentar a criança na aranha e
deixá-la explorar em… segurança. Mas será que está assim tão segura? Será que
realmente a criança aprende a andar mais rapidamente do que se o tentasse fazer
sozinha?
Caros pais, sentar a criança numa aranha é igual a sentá-la no automóvel, sem cinto de segurança.
Sabia que as
quedas são uma das principais causas de acidentes mortais, na Europa, em
crianças com idades entre os 0 e os 19 anos?
Sabia que uma
das causas das quedas são as aranhas e que 90% dos danos causados são na cabeça
e que, destes últimos, mais de 30% correspondem a danos cerebrais?
Assustadores
estes números, não são? Também o são para a European Child Safety Alliance e
para a ANEC (entidade europeia certificadora). E, por isso, desaconselham
totalmente o uso das aranhas, já que para além de não promoverem o
desenvolvimento da marcha nas crianças, também demonstraram aumentar
exponencialmente o risco de acidentes a nível cerebral (como já referido).
Para além das quedas, o uso de
aranhas/ andarilhos poderão levar a:
- queimaduras – a criança está
mais elevada, consegue alcançar lugares mais altos e com isto, facilmente
alcança fornos, puxa toalhas da mesa onde já estão recipientes com conteúdo
quente, …;
- envenenamento - exatamente pelos mesmos motivos descritos na
situação anterior. Como se encontra mais elevado, tem acesso a lugares que de
outra forma estariam ligeiramente mais inacessíveis.
É importante referir ainda que, de estudos realizados, os acidentes ocorrem maioritariamente sob observação dos pais. E embora pareça descabido, a razão deve-se ao facto de, nas aranhas, a crianças consegue percorrer uma maior distância, num menor espaço de tempo. O que dificulta a tarefa dos pais em alcança-los e evitar o acidente.
Para além disso, temos a questão do desenvolvimento físico. Se pensarmos bem, muitas crianças que são sentadas nas aranhas, ainda têm a perna curta, pelo que começam a “andar” em bicos de pés de forma a conseguirem movimentar a aranha. Esta situação associada a uma incorreta postura da anca poderá levar a problemas futuros na marcha.
Devido a todas as intercorrências verificadas ao longo dos anos, o Canadá foi o primeiro país a proibir a venda e utilização de aranhas, em 2004.
E se não pode utilizar as aranhas, como pode fazer para ajudar o seu
filho a andar?
Para responder a esta, coloco
outra questão. Como faziam os nossos pais para nos ajudar no desenvolvimento da
marcha ou como fazemos nós com os nossos filhos, quando não temos aranha
disponível?
Pois é! Não há nada melhor do que
o deixar explorar o ambiente. Proteja-o de todos os locais que poderão suscitar
perigo e deixe-o andar pela casa. Por norma, as primeiras vezes que se irá
levantar, será apoiando-se no sofá ou num móvel. Garanta que o móvel não pode
tombar e para isso tente fixá-lo o melhor possível à parede, por exemplo.
Dedique-lhe algum tempo e
ampare-o na marcha. Ele irá adorar!
No fundo, é permitir que, no
tempo dele, consiga dar os primeiros passos, sem recorrer a objetos que podem
comprometer o adequado desenvolvimento e a saúde e bem-estar.
Nem tudo o que é “à moda antiga”
é mau.
E por aqui desejamos uns felizes
primeiros passos… em segurança.
o pai, a mãe e eu
Ortoptista - o que é?
Ortoptista... a palavra difícil e a profissão que poucos sabem o que é.
A licenciatura em Ortóptica atribui a qualificação para o exercício profissional independente e autónomo, cujo conteúdo funcional se rege pelos Decreto-Lei nº. 564/ 99 de 21 de dezembro; Decreto-Lei nº. 261/ 93 de 24 de julho e Decreto-Lei n.º 320/ 99 de 11 de agosto e pelo Despacho n.º 3207/ 2012 de 3 de dezembro. Os profissionais licenciados em Ortóptica enquadram-se na categoria de Técnico Superior de Diagnóstico e Terapêutica.
Após esta "explicação legal", vamos simplificar!
A palavra Ortóptica deriva do grego "ortho optikos" que significa "olhos direitos". Por aqui podemos entender que umas das principais áreas de intervenção é o estrabismo. Na verdade, a profissão, pelo nome que é conhecida até aos dias de hoje, foi criada exatamente com base no estrabismo. O ortoptista era um profissional de saúde que tratava as disfunções da visão binocular. Atualmente, essa continua a ser uma área nobre de atuação dos ortoptistas. No entanto, o trabalho que desempenhamos tornou-se muito mais amplo e dinâmico.
Enquadrados em equipas multidisciplinares, na área de oftalmologia, os ortoptistas exercem funções tanto no setor público, como no setor privado. São responsáveis pela realização dos exames complementares de diagnóstico, podem realizar consultas de optometria e contactologia, trabalhar em centros de investigação, em áreas responsáveis pela baixa visão, treino visual e lecionar. Participam também em programas de rastreio, como o Rastreio Nacional de Retinopatia Diabética e os rastreios de deteção de fatores ambliogénicos, em idade pré-escolar. Isto faz com que, numa grande maioria das vezes, estes profissionais sejam uma primeira linha de contacto com a população.
O mais provável é já se ter cruzado com um ortoptista, simplesmente não sabia é que era este o nome da sua profissão.
E qual a importância da Ortóptica e de um Ortoptista?
São diversas as patologias oculares, assim como sistémicas, que podem provocar alterações na motilidade ocular. Desta forma, a Ortóptica propriamente dita, continua a ter um papel fundamental nos dias de hoje.
Nas crianças é necessário garantir um diagnóstico precoce, de modo a que o tratamento seja o mais eficaz possível, permitindo que a criança tenha um correto desenvolvimento visual. Em adultos, uma das principais causas de estrabismo é o traumatismo e lesões nos pares cranianos, como consequência de doenças sistémicas. Logo, um acompanhamento próximo e estreito pode fazer toda a diferença. Grande parte das patologias oftalmológicas apresentam melhores prognósticos se detetadas precocemente. Fazendo os ortoptistas parte dos cuidados primários de saúde, são muitas das vezes estes profissionais que sinalizam situações urgentes e fazem um primeiro acompanhamento.
Joana Azevedo
Joana Azevedo
A Joana Azevedo tem 31 anos e é Ortoptista.
A visão é uma das suas maiores paixões, o que a levou a licenciar-se em Ortóptica, na Escola Superior de Saúde do Politécnico do Porto. O seu percurso profissional foi sempre feito na área da visão, quer na parte comercial, quer na parte de prestação de cuidados primários de saúde.
Atualmente encontra-se a trabalhar na Opticalia de Amarante, onde realizo consultas de optometria, contactologia, avaliações ortópticas, terapia visual, entre outras.
Um dos seus principais objetivos é tornar a sua profissão mais conhecida e, para isso, criou uma página no Instagram (@ortoptista_joanaazevedo), onde diariamente explica o que é a Ortóptica e o que faz um Ortoptista. Uma das missões da sua página é a partilha de conteúdo informativo, de forma lúdica e elucidativa.
O choro intenso nos lactentes
O choro é a linguagem universal do bebé.
É com o choro que ele se apresenta ao mundo e, no momento do parto, o choro significa para os pais vida e saúde. No fundo, é este grito de independência que traz alívio aos pais e reforça os laços de amor.
Contudo, o choro deixa de ser visto da mesma forma ao longo do tempo, quando começa a ser intenso e persistente. E embora nem todos passem pela mesma fase, é normal os bebés passarem a ter períodos de choro intenso durante várias horas seguidas.
Já lhe aconteceu?
Deixe-me adivinhar! O seu bebé começa a chorar ao final da tarde e consegue passar várias horas seguidas neste registo, sem que nada funcione para o acalmar. Acertei?
Pois é. Então vamos lá ver se
conseguimos desmistificar o que está por detrás do choro excessivo.
Entre 9 a 26% dos bebés
apresentam períodos de choro intenso até cerca dos 4 meses de vida e este é o
principal motivo de consultas recorrentes de Saúde Infantil.
Mas afinal porque ocorre esta
situação?
Parece-me que uma coisa que para
todos é certa é que o choro faz parte da forma como o bebé comunica com os
pais. É através dela que comunica que tem fome, sono, está cansado ou simplesmente
quer um miminho.
Costumo dizer aos pais que, à
medida que o tempo for passando, conseguirão perceber que o choro do bebé tem
diferentes timbres, tendo em conta a razão que o leva a existir. E isto é mesmo
verdade.
No entanto, a partir das 6
semanas, até cerca dos 4 meses de vida, o choro dos bebés torna-se excessivo,
muitas vezes gritado, como se tivesse dor. E o pior de tudo é que é de difícil
consolo ou até mesmo impossível de consolar. Podem inclusivamente permanecer 5h
ou mais a chorar sem conseguirmos fazer cessar o que o incomoda.
Por outro lado, há especialistas
que referem que o pico deste “comportamento” acontece às 6 semanas e vai
diminuindo, tendo em conta a capacidade de regulação do bebé, que faz com que
haja uma menor necessidade de recorrer a influências reguladoras externas.
Vários são os estudos realizados
para tentar perceber a razão de haver um choro intenso a partir das 6 semanas e
até aos 4 meses. E, atualmente, a teoria mais comummente aceite é a de que a
criança apresenta uma imaturidade a nível do sistema nervoso central que
dificulta a autorregulação. O que acontece com as cólicas tem um pouco a ver
com este aspeto. Com a comida, os movimentos do estômago e intestinos aumentam
e com ele o desconforto do bebé. Como há uma imaturidade, o bebé não consegue
processar este desconforto e chora de forma intensa. É importante referir que
as cólicas afetam 20 a 30% das crianças até aos 3 meses.
Então o quer tudo isto dizer?
Em suma, o que quero dizer é que
é normal que o seu bebé:
- chore por um longo período de tempo, que pode atingir pelo menos 5h;
- estes episódios são mais frequentes ao final da tarde e por vezes durante a noite;
- não apresente uma causa aparente para chorar;
- apresente um fácies de dor, o que não quer dizer que aconteça, não obstante o choro poder ser caracterizado por choro gritado;
- não se acalme com as medidas que tentar promover e isso não significa que as esteja a fazer de forma errada ou que seja má mãe ou mau pai.
Se o seu bebé está com uma
adequada progressão ponderal (aumento adequado de peso), o seu desenvolvimento
é normal e não existe um problema de base, então este quadro de choro intenso é,
também ele, normal. O mesmo se pode dizer dos bebés prematuros.
Quem passa por uma neonatologia
sabe que inicialmente estes choram pouco, por um curto período e de forma pouco
vigorosa. O seu choro faz lembrar o miado de um gatinho bebé. Acalmam-se
facilmente, bastando um toque, um aconchego e uma chucha.
No entanto, à medida que vão
crescendo e atingindo as 38 – 40 semanas de idade corrigida, o choro torna-se
mais frequente e vigoroso, sendo também esta situação reveladora de um adequado
desenvolvimento.
Quanto mais baixa tiver sido a
idade gestacional, maior a probabilidade de fazerem períodos de choro/ agitação
com duração de 6h ou mais por dia, com um pico máximo aos 3-4 meses de idade corrigida.
Embora fazendo parte do desenvolvimento, em que pode ser prejudicial este choro intenso?
Algo que desconhecemos, não
controlamos e eleva os níveis de stress é algo que tem um impacto negativo na
nossa vida. Agora multipliquemos esse momento por quase todos os dias da
semana, durante 4 meses. Não dá para imaginar, verdade?
Obviamente qualquer pai tenta,
incessantemente uma resposta adequada para o seu filho que parece estar em
sofrimento. Nestas tentativas nem sempre bem-sucedidas, acontece muitas vezes a
interrupção prematura da amamentação,
já que a mãe pensa que o bebé chora com fome e a quantidade de leite que produz
não é suficiente.
Nisto, introduz o leite artificial, mas mesmo assim, o bebé tem dias em
que não se consegue aguentar. Sim, aguentar é a palavra correta quando o
cansaço bate à porta e as respostas são quase nulas. Ao esgotamento dos pais,
surgem novas aquisições de leite artificial e, quando dão conta, já têm em
exposição, na bancada da cozinha, os leites de todas as marcas. Mas continuam
sem conseguir acalmar o bebé durante a maior parte dos dias. E entram numa
espiral. Deixou de amamentar, afinal não é o tipo de leite artificial que
influencia esta situação no seu filho e esta situação aumenta a irritabilidade
e frustração da mãe e do pai. A interação entre estes e o bebé pode passar a
apresentar algumas dificuldades caso a situação não se consiga controlar.
Por outro lado, há estudos que
falam que, na infância, crianças que tenham tido estes episódios de choro
intenso, têm maior propensão a alterações comportamentais, hiperatividade e
perturbações do sono.
Não obstante ser uma situação
normal e nem sempre conseguirmos o controlo da mesma, há técnicas que podemos
colocar em prática e tentar a nossa sorte. No entanto, caso não seja
bem-sucedido, não fique preocupado. Decerto está a fazer tudo corretamente.
Para terminar, deixamos então algumas sugestões:
- Sempre que necessário procure ajuda dos profissionais de saúde que vos acompanham
- Sempre que se sentir esgotada, deixe o bebé com o pai ou a avó e vá beber um copo com água. Respire fundo e regresse para junto do seu bebé quando estiver mais calma;
- Reveze-se com o seu marido no cuidado ao bebé;
- Acredite em si e não deixe de amamentar. Procure apoio, mas persista. A introdução de leite artificial aumenta o risco de cólicas e a permanência neste ciclo vicioso;
- Quanto mais tranquila se encontra, mais fácil será tranquilizar o bebé. Se perceber que o bebé não tem fome, tem a fralda seca, já teve dejeções, tente fazer uma massagem na barriguinha e fale-lhe com suavidade e doçura;
- Encoste-o a si e contenha-o. O contacto com o seu corpo, o seu calor, cheiro e batimento cardíaco acabarão por fazer milagres;
- Pode colocar o seu bebé de barriga para baixo, no seu braço. Por norma promove algum alívio abdominal e ele sentir-se-á confortável;
- Sons ritmados, como os que existem nas canções de embalar, por vezes têm o efeito calmante. Por isso, ponha em uso os seus dotes vocais e aprenda músicas infantis e tranquilas.
- Existem alguns produtos naturais que ajudam a regular a flora intestinal com a finalidade de diminuir os episódios ou a intensidade das cólicas. Poderá aconselhar-se com o seu médico assistente.
Independentemente do que possa fazer para ajudá-lo a descansar, não o deixe a chorar sozinho. Isso fará com que o seu bebé perceba que os pais estão lá para quando necessitar. Lembre-se que ele esteve 9 meses (caso tenha nascido de termo) a ser embalado na sua barriga. Contido, quente e com alimentação sempre que necessitasse sem esforço. Após nascer, passa a ter que fazer tudo sozinho. A diferença é grande e a adaptação demorará algum tempo.
Tenha paciência! Aproveite para descansar quando ele finalmente tranquilizar.
o pai, a mãe e eu
Amamentar na prematuridade
Quando comecei este meu caminho com o pai, a mãe e eu, tentei perceber as necessidades dos pais que vivenciaram a prematuridade, principalmente no pós-alta. A minha experiência estava completamente focada para a fase do internamento e durante estas conversas houve uma crítica que me marcou profundamente. Sempre acreditei que, de uma forma geral, tínhamos uma prestação de cuidados virada para as necessidades do bebé e da família, mas a crítica fez-me refletir e rever vários momentos dos meus 15 anos de Neonatologia.
Realmente tentamos sempre prestar os melhores cuidados, tendo em atenção o bem-estar e o adequado desenvolvimento do bebé, mas AINDA falha um aspeto muito importante. A AMAMENTAÇÃO.
Para quem não vivenciou a prematuridade, é importante referir que principalmente as mães se culpabilizam pelo nascimento prematuro. Consideram que não foram boas mães, que algo falhou neste seu percurso da gravidez, que fez com que o seu bebé tivesse como destino a incubadora e não o seu colo. Se somarmos a esta questão a impossibilidade em amamentar (quando esse era o maior desejo da mãe), então estamos perante uma mãe/ mulher devastada.
É do conhecimento geral que o leite materno desce imediatamente determinadas condições e para isso não basta apenas o bebé ter nascido. É necessário o contacto físico, o cheirinho do bebé, situações que não existem na prematuridade, na maior parte das vezes.
Então as mães de bebés prematuros estão "condenadas" a não amamentar?
Nada disso. Mas aqui surge a crítica. É IMPORTANTE QUE HAJA O APOIO DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE. E é aqui que por vezes falhamos.
Se em situações de um parto normal, após gestação de termo, é importante o apoio à mulher e o reforço positivo que servem de alavanca ao sucesso, no caso de uma mãe de prematuro, esta situação reveste-se de maior importância.
Portanto, se é mãe de um bebé prematuro, que neste momento está internado numa unidade de neonatologia, acredite! É possível sair da unidade a amamentar.
Quando o bebé nasce, provavelmente não irá comer nas primeiras horas, talvez dias. Mas, a mãe poderá começar imediatamente a estimular a mama. Será muito importante que o primeiro leite que o seu bebé ingira seja o seu.
É importante:
- assim que possível começar a estimular a mama, como se fosse o seu bebé. De 3/ 3h e no início e fim da noite, já que é neste período que a hormona que produz o leite está em circulação em maior concentração;
- que quando puder ter o seu bebé ao colo, consiga ter contacto pele-com-pele (método canguru), já que um dos benefícios para a mãe é a produção de leite;
- mesmo que ainda demore a conseguir pegar no seu bebé, tente fazer a estimulação da mama quando está sentada ao lado da incubadora. O contacto visual e o toque são dois dos aspetos que também ajudam na produção de leite.
Dependendo da idade gestacional com que nasceu, o seu bebé poderá demorar mais ou menos tempo até o conseguir adaptar. No entanto, mesmo que o seu filho esteja a receber o leite por sonda, questione a enfermeira responsável por ele sobre a possibilidade de, ao mesmo tempo, ser adaptado à mama. Por vezes, este é o estímulo que necessitam para começar com alguns movimentos de sucção (mesmo que não sejam eficazes). Poderá também colocar-lhe a chucha, à medida que o leite vai correndo pela sonda, pois esta será uma ajuda preciosa no treino da sucção.
É por volta das 34 semanas que o bebé começa a conseguir coordenar a sucção com a deglutição e, é nesta altura, que as enfermeiras começam a ficar mais tranquilas quanto ao treino de adaptar à mama. Poderá ainda acontecer que se canse. Que exista ainda uma dificuldade em coordenar a sucção-deglutição-respiração. Então é importante não forçar o bebé, para que não hajam retrocessos.
Se ele se demonstrar recetivo, então deixe ver até onde consegue chegar, sempre com a ideia que, o que ele fez nesta mamada, pode não ser o desempenho que terá na próxima. As conquistas são pequenas e lentas e o importante é manter-se tranquila.
Sempre que estiver com o seu bebé e a sua situação o permite, adapte à mama. Insista! Peça ajuda às enfermeiras. Quanto mais segura se sentir durante o internamento, menos dificuldades terá quando chegar a casa.
E se já não estiver a conseguir produzir leite? Não será possível contornar esta situação?
Sim, é possível, com muita paciência e com um pensamento positivo. Lembre-se que é possível uma mãe adotiva amamentar um bebé. É moroso, mas conseguimos fazer com que aconteça. Para isso, é importante continuar a estimular a mama e, na altura em que o bebé for mamar, colocar uma sonda colada à mama. Adaptar o bebé à mama para que também a sonda seja introduzida na boca deste. O leite mesmo que artificial, correrá pela seringa-sonda e será sugado pelo bebé à medida que este for mamando na mama (para esta situação é importante procurar ajuda de um profissional/ CAM que a ajude no procedimento).
Desta forma, o seu cérebro perceberá que há um bebé a sugar na sua mama e que necessita haver produção de leite. E todo o processo começará a desenrolar-se.
Tudo na vida requer perseverança, consistência e positividade. Se realmente quer amamentar de verdade, então acredite em si e no seu filho. O trabalho em equipa será bem-sucedido.
Quando estiver em casa e o pesadelo do internamento tiver terminado, não duvide de si. É natural que o peso oscile um bocadinho. Que o bebé passe a aumentar menos do que no internamento, mas é tudo uma situação transitória. Garanta que quando ele mama, mama sem pausas prolongadas e que as fraldas têm sempre urina. Vá falando com a enfermeira e/ ou médico assistente em caso de dúvida. Eles são as melhores pessoas para a ajudar neste percurso.
o pai, a mãe e eu













