A atuação da Psicologia na Infertilidade tem sido abordada ao longo dos últimos anos num contexto biopsicossocial e cultural, numa articulação multidisciplinar, para dar resposta às necessidades parentais de uma maternidade cada vez mais adiada. 




Partindo do pressuposto de que a Infertilidade é um problema comum ao casal uma vez que limita um projeto de vida a dois, admite-se a possibilidade de existirem certos fatores psicológicos implicados na capacidade reprodutiva, entre os quais se destaca particular importância para a ansiedade, stress e depressão, sendo que os mesmos poderão ser preponderantes quanto ao equilíbrio da satisfação de necessidades físicas e psíquicas e a sua imunidade face ao restabelecimento e regulação do próprio organismo. 

A consulta psicológica não só procura estar orientada para uma abordagem breve ou pontual, como também possibilita através da sua intervenção diferenciada avaliar junto do casal, não só a motivação e expetativas do mesmo como também todos os pensamentos e emoções que se encontram implicadas na vivência da sua infertilidade, possibilitando ao mesmo tempo desbloquear situações, contextos, crenças onde a presença da culpa, ansiedade e frustração se fazem sentir presentes no dia a dia do casal. 

Sendo que um dos objetivos propostos é o de ajudar o casal a desenvolver estratégias que lhes permitam gerir o stress e o seu impacto negativo, restabelecendo o equilíbrio emocional. 

Tanto o homem como a mulher encontram-se expostos a níveis bastante elevados de stress, ansiedade e expetativas que nem sempre são ajustadas às fases de ciclo do processo de tratamento em Procriação Medicamente Assistida (P.M.A.).

Perante esta manipulação a que o casal está sujeito, existem reatividades também diferentes face à estimulação e fases do tratamento, provocando alterações físicas, hormonais e psíquicas, comprometendo o funcionamento e o equilíbrio do metabolismo, preponderantes no sucesso/ insucesso do processo terapêutico. 




Contudo, a vivência interior da infertilidade ainda que possa ser semelhante entre os membros do casal, é por outro lado diferenciada, sobretudo como é expressada por parte do homem quando comparada com a da mulher e não necessariamente por haver um impacto emocional distinto sobre a sua limitação em conceber de forma natural. 

Enquanto a mulher sente maior necessidade em partilhar a sua angústia, frustração e desesperança, o homem por sua vez apresenta uma maior tendência para a introspeção, não expondo tanto a sua preocupação e sofrimento através da verbalização daquilo que sente ou pensa face ao problema. 

A maioria dos casais com problemas de infertilidade passa por uma experiência desgastante e muitas vezes devastadora do seu projeto de vida, a chegada de um filho. 

Alguns casais, após sucessivas falhas nos tratamentos, costumam procurar suporte psicológico na tentativa de desenvolverem alguma assertividade, na procura de compreensão ou reconhecimento para com a sua dor. 

Por vezes chegam mesmo a indiciar um compromisso emocional que espelha depressão, ansiedade, manifestando dificuldade em saberem lidar com a duração e a profundidade da tristeza que se instala e lhes retira esperança. 

À semelhança de outro factor perturbador emocional, a infertilidade pode gerar dificuldades ao nível do entendimento e equilíbrio da relação, podendo ser necessário nesses casos uma intervenção mais ajustada (individual/ casal), tendo em especial atenção o diálogo, a partilha de medos e apelo à compreensão do parceiro para que consigam gradualmente restabelecer a sua afetividade e rotina, sendo que toda esta intervenção deverá ser feita numa abordagem breve de seguimento ou mesmo pontual, avaliando caso a caso, beneficiando a função da estrutura familiar e da relação. 




Existem casais que ao recorrerem a técnicas de tratamento acabam por ter sucesso e outros que nunca conseguirão ter um filho, sendo que um dos papéis fundamentais do acompanhamento psicológico passa por ajudá-los a ultrapassar esta dura fase, aprendendo a lidar o melhor possível com esta situação com a melhor serenidade e aceitação. 

Em muitos aspetos estes casais experienciam uma sensação de perda ou falta que até então nunca se tinham visto confrontados, focando o seu maior objetivo na maternidade, até porque na maioria não conseguem lidar tão bem com uma demanda que deveria ser natural e facilitadora de um amor, precisando de um apoio mais especializado e específico que os ajude na sua aceitação e que simultaneamente os direcione para outras metas e objetivos de vida que os faça reconhecer que existe vida para além de um projeto parental.

Por vezes ajudar o casal a aceitar e ultrapassar o facto de não conseguirem ter filhos poderá levar anos, mas também poderá ser até mais fácil se o casal sentir que já fez todos os possíveis, recorrendo a todas as técnicas que estiveram ao seu alcance e mesmo assim não conseguiram uma gravidez. É necessário que o casal reconheça os seus limites, ainda que não seja uma tomada de decisão simples, o facto de pensarem em parar os tratamentos, muitas vezes remete-os para novas possibilidades e liberta-o para seguir em frente com a sua vida. 

Nestes casos o que reconhecemos em consultório é que o casal não se deixa vencer pelo cansaço ou pela desesperança, mas sim pela mudança de atitude e reestruturação cognitiva, que lhes permita a integração da ideia de uma vida sem filhos. 




Na questão da infertilidade torna-se necessário ajudar o casal a tomar consciência desse desejo e a sua motivação temporal escutando-o ativamente face às suas dificuldades, opções de vida e culpabilização quanto à sua consciente participação em terem adiado este projeto de vida a dois e perante a sua "impossibilidade" de terem filhos no momento presente.

Por outro lado e de forma complementar, toda a compreensão proveniente do apoio familiar e de amigos podem nesta altura ser extremamente valiosos, no sentido em que os ajudará a desenvolver um novo suporte extensível, que os desvie gradualmente dessa dor, abrindo portas a novas e futuras perspetivas de vida.

Um outro aspeto importante que muitas vezes é trabalhado com os casais que nos procuram é que os mesmos reconheçam que a sua capacidade de conceber não deve, nem pode, afetar a forma como cada um se sente perante a sua identidade face à escolha de adiamento da parentalidade, nem a sua vida sexual. 

Durante muito tempo, o maior enfoque sobre questões relacionadas com a infertilidade recaía na maioria das vezes na mulher, sem que o homem fosse devidamente avaliado. 

Sabe-se que, hoje em dia, existem cada vez mais problemas de infertilidade relacionados com causas masculinas, sendo que os homens com problemas de espermatozóides experienciam maior índice de ansiedade e dificuldades emocionais devido, muitas vezes, à confusão que possuem entre o conceito de virilidade e fertilidade, não sendo a mesma coisa. Um homem que possui uma baixa contagem de espermatozóides, ou com mobilidade reduzida, continua a produzir níveis normais de testosterona, logo a sua masculinidade e potência sexual apresentam-se iguais às de qualquer outro homem que não tenha problemas relacionados com a sua fertilidade. 




Por último, gostaria aqui de referir que a atuação do psicólogo deve ser uma presença complementar no apoio psicológico, integrado num processo multidisciplinar a todos os casais que vivenciam a infertilidade. A sua intervenção passará pela prestação de um acompanhamento mais interventivo perante a adaptação e a aceitação face ao impacto que a mesma possui no ciclo de vida daquele casal, bem como ao longo de todo o processo de tratamento em saúde reprodutiva, com o intuito de juntos estabelecerem estratégias, limites, apoiando as tomadas de decisão e a elaboração de novas metas e objetivos para a sua vida. 



Ana Magina Silva